É só futebol. Não é só carnaval!

Sábado de carnaval: Botafogo e Flamengo fazem único clássico das semi-finais da Taça Guanabara 2018 em Volta Redonda.

A manchete é toda errada, correto? Primeiro porque os dois fazem o “único clássico” das semi-finais da tenebrosa Taça Guanabara. Isso explicita o rumo que tomou o futebol carioca e o interminável amadorismo na direção dos clubes. Até quando vamos continuar destruindo a mais tradicional história do futebol brasileiro, repetindo eternamente erros de outrora sem acompanhar a inevitável modernização e profissionalização do negócio chamado futebol?

Acontecimentos como a eleição do Vasco, a crise sem precedentes do Fluminense e as intermináveis dificuldades do Botafogo, só podem ser superadas com modernização, com gestão, com compliance, transparência, modernização, mas esses clubes insistem em não enxergar isso. Politicagem e interesses pessoais imperam em detrimento da paixão dos torcedores e isso segue levando o futebol carioca a bancarrota.

Me perdoem os ignorantes, mas flamenguista que sou, não tenho nenhum prazer em assistir a um clássico como o de sábado. Não existe rivalidade com o abismo estrutural existente entre as equipes e isso não é saudável para o futebol do estado. O futebol carioca está morto, pelo menos por enquanto…

Segundo: único clássico em Volta Redonda.

Agora me falta a pessoa a quem dar o devido crédito – e que me perdoa e me corrijam se lembrarem – mas algum jornalista citou no twitter que milhares de turistas levarão embora várias lembranças do carnaval do Rio, menos de um grande clássico de futebol. Que boa observação, porque a tradicional semi-final no sábado de carnaval tinha exatamente o intuito de propiciar essa experiência a turistas e nem isso os clubes, numa profunda crise administrativa e afundados na ignorância conseguem preservar/explorar. Resultado, menos de 8 mil pessoas no estádio. Aplausos a todos os envolvidos.

Se não bastasse isso, o que foi o tema mais importante após o clássico? A estreia do Ceifador? A vitória do Flamengo sobre o rival? Um grande clássico cheio de chances para os dois lados? Tem verdades e mentiras nessas perguntas, mas nenhuma delas foi o tema central do debate. A comemoração do garoto Vínicius JR é que foi o principal tema.

Ora bolas, quando foi que o futebol ficou tao chato e não percebemos? Acho que quando a ignorância passou a imperar nas redes sociais, e tudo virou uma mera questão de lado B e Lado A. Isso fica evidente quando alguém dá uma opinião e é surrado na mesma proporção em que é apoiado com impropérios de ambos os lados, pessoas dispostas a se matar pelas mais banais opiniões. E onde ficou guardada a sadia rivalidade que dava sobrevida a essa porcaria de campeonato que vem respirando por aparelhos a duas décadas pelo menos?

Eu me lembro que eu ficava puto quando o Edmundo zoneava a zaga do Flamengo, e disparava um monte de besteiras nas entrevistas. Que os vascaínos nos zoavam. Uma das piores derrotas que tive o desprazer de presenciar em todos esses anos de amor ao Flamengo foi o trágico gol de barriga do Renato Gaúcho. E fomos achincalhados. Óbvio, a zoeira é parte indissociável do futebol, que graça teria se fosse diferente? Mas nem por isso, nunca quis matar esses caras, sempre foram personagens que deram vida ao futebol. Onde foi que nos esquecemos disso? Quando as redes sociais passaram a influenciar mais nossas crianças que as próprias histórias contadas por nossos pais?

Alguém esqueceu da lendária rebolada do animal frente ao Gonçalves?

 

Fora o fato que futebol é rivalidade, é brincadeira, é molecagem e a zoeira é infinita, é difícil não falar na postura do Botafogo frente ao acontecido. Torcedores em fúria nas redes sociais, ameaças de agressão física ao garoto, vários posts racistas (2018 meu Deus!) e uma nota oficial do clube informando que o veto da final da TG no Engenhão se deve ao fato da comemoração do garoto.

 

Quanto amadorismo e quanta vergonha alheia!

 

Que não liberassem o estádio, porque enfrentar a ira de boçais torcedores ou lucrar alugando o estádio num momento de extrema necessidade financeira é uma decisão muito complicada (Para mim não seria, mas para eles deve ser…) A nota da diretoria deixa claro o motivo da situação atual do clube e pior, se apequena ao se colocar numa situação de aumentar ainda mais a chacota.

E esse episódio traça um paralelo interessantíssimo com outro que também foi um dos principais temas desses 4 longos dias: O desfile da Paraíso do Tuiuti.

Esse paralelo eu quero dar um crédito ao cara que idealizou esse espaço, o Carlos Alberto Ferreira. Num post muito acertado no Facebook ele resumiu a questão. Nas discussões sobre o crítico desfile que chamou a sociedade de volta para o debate sobre o que está acontecendo no país (desde 1500), a briguinha entre esquerda e direita foi a única vertente de discussão nas redes. Mas o tema da escola era muito mais profundo, a escravidão e como ela ainda existe…

FOTO: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO

E ela existe toda vez que um acéfalo vai a uma rede social chamar um irmão de “macaco” em pleno 2018, dentre outros casos que poderia citar aqui infinitamente. É inadmissível o ato por si só, quanto mais por motivos tão fúteis como uma comemoração de futebol.

Enquanto os boçais se preocupam com algo tão inocente, mãos invisíveis seguem usando as pessoas como massa de manobra para os mais escusos fins, intolerância, ódio e violência. Tem temas muito mais sérios para serem discutidos e a imbecil polarização e propagação de ódio está no cerne do problema.

 

Viva a alegria no futebol e no carnaval e que o futebol carioca renasça das cinzas, com ordem e progresso. É o que precisamos no momento.

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