A falta que a falta faz – Brasileiro 2017 – Vasco 2 x 5 Corinthians

Por falta de tempo, infelizmente, não escrevo pós-jogo desde a estreia no Brasileiro contra o Palmeiras no Allianz Parque, quando saímos derrotados por 4×0 após fazer um primeiro tempo relativamente bom contra o atual campeão brasileiro. Naquela ocasião pontuei:

“A propósito, que o Gigante da Colina ultimamente não tem vocação ofensiva, não é nenhuma novidade. Mas a dificuldade em colocar a pelota no fundo do barbante não vem de hoje, e sim dos últimos anos e diretamente ligada a fragilidade dos nossos elencos.

Em 2016, em 64 jogos foram 96 gols marcados. Em 2015, em 69 jogos foram apenas 79 gols. Vale lembrar: estes times ficaram marcados por gols em sua maioria oriundos de cobranças de faltas (cruzamentos) ou escanteios. E assim em 2015 fizemos a pior campanha do primeiro turno da história do Brasileirão e no ano seguinte jogamos pela terceira vez a segunda divisão.

Um time que faz poucos gols não necessariamente é um time ruim (o São Paulo tricampeão brasileiro com Muricy Ramalho cansava de ganhar de 1×0, por exemplo), mas para isso é preciso tomar poucos gols e ter um aproveitamento alto das chances que cria. Algo que o Vasco vem se especializando em NÃO FAZER. Contra o Fluminense, o Vasco teve boas chances quando o placar ainda marcava 0x0. Não converteu nenhuma. Hoje, contra o Palmeiras (que por conta da disparidade financeira acima citada criou um abismo técnico entre as equipes), o time não poderia se dar ao luxo de repetir a fórmula do insucesso.

[…]

Que estamos ainda na primeira rodada do Brasileiro e logo de cara tivemos talvez o jogo mais difícil do campeonato, é certo. Assim profetizar qual será a sorte do Vasco nesta competição, neste momento, parece mero exercício de adivinhação. No entanto, há de se alertar: um time que marca poucos gols, desperdiça a maioria das (ou quase todas) chances que cria e atua com a zaga reserva como se titular fosse, parece destinado ao sofrimento. Torçamos para que este seja algo momentâneo, apenas uma estrofe necessária para no fim chegar aos solos e às palmas do sucesso. Pois de melancolia, o vascaíno está de fado cheio.

E o que mudou de lá pra cá?

O Vasco seguiu se portando bem nas partidas, o que deixa escancaradamente evidenciada a capacidade do nosso estudioso técnico. A zaga “reserva” que atuou contra o Palmeiras (Rafael Marques e Jomar, já que Luan havia sido negociado com o Palmeiras e Rodrigo afastado e liberado para a Ponte Preta) voltou para a reserva com a contratação dos contestados Paulão e Breno (na verdade Paulão e Rafael Marques formaram a zaga contra o Bahia, primeira partida após a derrota na estreia, mas R.Marques saiu de campo lesionado e Breno entrou para não mais sair do time). O primeiro muito criticado pela torcida colorada, a quem atribuiu a culpa no inédito rebaixamento do ano passado.  O segundo, quer por problemas particulares ou físicos, com 27 anos contabiliza apenas 88 partidas como profissional. E mais um detalhe, o até então incontestável craque do time, Nenê, titular absoluto desde a sua chegada ao clube em 2015, foi barrado e teve que amargar o banco de reservas pela primeira com a camisa cruzmaltina.

Contra o Bahia, segunda partida no campeonato, às 11h da manhã de um domingo, com excelente público em São Januário, o time abriu 2×0 e no fim tomou sufoco. A partida terminou 2×1. Gols de Pikachu e Luis Fabiano. Nenê não foi utilizado na partida e permaneceu os 90 minutos no banco.

Na rodada seguinte, mais um jogo em casa. O adversário? O Fluminense, que em dois jogos contra nós no ano somava duas vitórias por 3×0 (no primeiro e no último jogo do Estadual). Com mais um grande público o time fez um primeiro tempo dos sonhos. Controlou a partida durante todos os 45 minutos iniciais e foi brindado com apenas um gol, de cabeça de Luis Fabiano. Na volta para a segunda etapa, no entanto, o panorama mudou. Abel Braga ajustou a marcação de seu time e jogo ficou equilibrado. O Fluminense em um pequeno intervalo de tempo viraria a partida graças a dois gols de pênalti. Mas aí entrou Manga Escobar (aquele mesmo que em sua estreia com a camisa do Vasco havia posto a mão na bola dentro da área e contribuiu diretamente para a eliminação na Copa do Brasil 2017 para o fraco time do Vitória-BA; o mesmo Escobar que deu a assistência para o 1º gol de Luis Fabiano com a camisa vascaína, na final da Taça Rio 2017), que estava em um dia inspiradíssimo. Em uma linda jogada individual pela esquerda empatou o jogo. Milton Mendes partiu pro tudo ou nada e também colocou Muriqui (que errou absolutamente tudo que tentou na partida: passe, chute, domínio de bola e marcação – uma tragédia) e Nenê, que, no último lance da partida, decidiria o jogo com o gol da virada e da vitória, após jogada de Escobar.

No último domingo, o Vasco foi até Porto Alegre enfrentar o Grêmio. Milton Mendes mudou a escalação da equipe. Poupou Luis Fabiano, escalou o time com três volantes, promovendo a estreia do recém-contratado Wellington (ex-Internacional e São Paulo). Além disso, manteve Nenê no banco e substituiu Pikachu por Escobar nos onze iniciais. Com a formação o Vasco não teria um centroavante de ofício. Quem achava que Manga faria o papel de “falso 9” se enganou. Quem tinha liberdade para flutuar próximo da área era na verdade Douglas. Em mais uma boa apresentação, o Vasco fazia jogo duro com o Grêmio. Marcava em cima e criava dificuldades para o Tricolor Gaúcho sair jogando. Mas aí, aos 36’/1ºT, Wellington cometeu pênalti infantil em Geromel e o Grêmio abriu o placar. Aliás, este foi o quinto gol de penalidade máxima em quatro jogos que o Vasco levou. Milton então colocou Thalles e Nenê numa tentativa desesperada de ao menos empatar a partida, mas no fim o que aconteceu foi o segundo gol gremista. Final: Grêmio 2×0 Vasco.

Ontem, em mais um dia de São Januário cheio (a torcida tem dado um show à parte nesse início de campeonato), o Vasco recebeu o Corinthians. Com a repetição da escalação do jogo contra o Fluminense, a torcida estava confiante em mais uma vitória em casa.

Mas logo com menos de 1 minuto jogado: susto. Kelvin subiu para disputar uma bola e quando aterrissou torceu o joelho. Saiu de maca. Enquanto seu reserva imediato, Manga Escobar, não entrava, o Corinthians foi tocando a bola de pé em pé, até Guilherme Arana, pela esquerda, rolar para trás e Marquinhos Gabriel abrir o placar. Chamou a atenção a passividade vascaína no lance, absurdamente envolvida pela rápida troca de passes corintiana. Parecia que o Vasco estava na “de fora” e acabara de entrar ainda frio e o Corinthians era o “rei da mesa” da pelada.

Tudo bem. O time não se abateu e partiu em busca do empate. Com marcação alta, prensou o Corinthians em seu campo de defesa e só deu Vasco. No entanto, a intensidade e o volume de jogo não se traduziam em gols. Na maioria das vezes que chegava com perigo, a opção era por cruzamentos pra área.

Até que aos 39′, Marquinhos Gabriel recebeu no meio e viu Jô arrancar na diagonal, nas costas de Paulão. O passe ocorreu no lado esquerdo do zagueiro vascaíno, à feição para o atacante corintiano já sair de cara para o gol. Lento e atrapalhado, Paulão ainda tentou se recuperar no lance, mas era tarde. São Martín saiu atabalhoado do gol e acabou trombando com Paulão antes de Jô tocar para o gol e fazer Vasco 0 x 2 Corinthians. O time do Parque São Jorge deu dois chutes a gol em todo o primeiro tempo e marcou em ambos.

O primeiro tempo terminou com desvantagem de dois gols para o Gigante da Colina. De se destacar a (mais uma) excelente partida até ali de Mateus Vital: Muito bem ofensivamente e auxiliando na marcação, manteve a calma e a serenidade de um veterano. Puxava a marcação e esperava o momento certo do passe, mesmo quando cercado por dois adversários. Por outro lado, Gilberto em mais uma péssima atuação conseguiu acertar a social em uma frustrada inversão de bola. De se destacar ainda, negativamente, um pênalti claríssimo não marcado em Manga Escobar e a não expulsão do zagueiro Pablo, após cotovelada na barriga de Luis Fabiano sem que a bola estivesse em jogo. Se fosse o contrário, será que Luis Fabiano também seria advertido apenas com o amarelo?

Lembra da falta de efetividade de que reclamava no jogo contra o Palmeiras? Ela voltou a aparecer em mais um jogo crucial, contra um adversário acostumado a marcar muito e sair apenas na boa. Mas em pouco tempo Luis Fabiano calaria a minha boca.

Na volta para o segundo tempo, Nenê substituiu o pífio Gilberto e com isso Pikachu foi deslocado para a lateral direita. Com menos de três minutos do segundo tempo, o placar marcava 2×2. Sim, você não leu errado. Em dois ataques, dois gols de cabeça de Luis Fabiano. No primeiro, aproveitou cobrança de falta de Nenê pela direita. No segundo, recebeu cruzamento de Henrique na medida pela esquerda.

Depois de tomar o empate num piscar de olhos, o Corinthians finalmente teve que sair para o jogo. E numa dessas chegadas ao ataque, aos 6′ repetiu a jogada do primeiro gol, que de tão perfeita a repetição, deu até a impressão de ser ensaiada. A zaga vascaína desta vez estava atenta e Guilherme Arana chutou pra fora.

Quatro minutos depois (10′), após chute de fora da área de Douglas, Cássio espalmou. O rebote ficou com Manga, que tentou repetir a jogada de seu gol contra o Fluminense. Não conseguiu, mas a bola sobrou para Luis Fabiano, de primeira, na marca do pênalti, tocar e mandar muito perto da trave. Seria a virada em dez minutos com hat-trick do Fabuloso. Mais uma epopeia vascaína como contra o Fluminense? Bom…não exatamente.

A atenção dos zagueiros cruzmaltinos duraria pouco. Aos 14′, o Corinthians contou com a lentidão e a tentativa frustrada de jogar em linha dos adversários. Clayson recebeu pela esquerda, brecou e, em mais uma bola enfiada, achou Maycon, passando às costas de Breno, para fazer 3×2. Um balde de água fria.

Depois disso o jogo ficou morno. O Vasco sentiu o golpe e não demonstrava mais o mesmo ímpeto. O Corinthians passou a administrar o jogo e quase tomou o empate mais uma vez aos 30′. Manga teve ótima oportunidade dentro da área, após tabela de Nenê e Luis Fabiano, mas, de canhota, isolou a bola.

Mais uma vez partindo pro tudo ou nada (perder de três é o mesmo que perder de quatro ou cinco para Milton Mendes – que assistia o jogo das cabines de rádio e TV por estar suspenso pela expulsão na Arena do Grêmio), saiu Jean e entrou o inoperante Muriqui.  Não demorou e o Corinthians se aproveitaria do rombo na zaga, aos 35′, quase marcou pela esquerda do ataque (direita da zaga vascaína) mais uma vez.

Dois minutos depois (37′), Nenê arriscou chute colocado e obrigou Cássio a fazer grande defesa. Mas no minuto seguinte, de forma cirúrgica, o Corinthians matou o jogo. Jô acreditou em lance que parecia perdido e pela direita de seu ataque (esquerda da zaga vascaína) cruzou para área. Clayton, que acabara de entrar, livre de marcação, nem precisou saltar para cabecear e fazer Vasco 2 x 4 Corinthians.

No fim, ainda sobraria tempo para mais um. Em quase replay do 4º gol, Paulo Roberto foi ao fundo e da direita cruzou para o meio. Pikachu chega atrasado no lance e Clayton escora para dar números finais à partida: Vasco 2 x 5 Corinthians.

Ao longo de todo o jogo o panorama foi o seguinte (dados da ACERJ):

FALTAS: Corinthians 14; Vasco 10

CARTÕES AMARELOS: Corinthians 3; Vasco 0

FINALIZAÇÕES NO GOL: Corinthians 6; Vasco 9

FINALIZAÇÕES FORA DO GOL: Corinthians 1; Vasco 13

CRUZAMENTOS: Corinthians 8; Vasco 32

GOLS: Corinthians 5; Vasco 2

O Corinthians teve um aproveitamento dos sonhos, quase perfeito, é verdade. Mas o Vasco foi praticamente o oposto. Se somarmos chutes no gol e fora, o time paulista deu 7 e marcou 5. Nós precisamos tentar 22 vezes para marcar míseros dois gols. É muito pouco. Sequer chega perto dos 50%. Talvez os incríveis 32 cruzamentos expliquem. Além disso, conhecido pela forte marcação, o Corinthians bateu quando necessário, prova disso foram os três cartões amarelos e as quatro faltas a mais cometidas.

Voltamos a deixar nossas deficiências escancaradas. Sentimos a falta que a falta faz.

Falta de planejamento (trocar o pneu com o carro em movimento e ainda por qualidade inferior aos que estavam – no caso dos zagueiros; trazer o Milton Mendes com a temporada em andamento, ao invés do início);

Falta de dinheiro para contratações de ponta;

Falta de coesão do time (em cinco jogos no campeonato marcamos apenas 7 gols e sofremos incríveis 14; nosso saldo é -7)

Falta de (não fazer) faltas (quando necessário, para parar o adversário);

Falta de inteligência e velocidade dos nossos zagueiros e

PRINCIPALMENTE

A falta de eficiência ofensiva (crônica) do nosso time (não dá pra seguir desperdiçando tantas oportunidades de gol; jogar bem e perder é pior do que jogar mal e vencer – no fim o que contam são os três pontos; de nada adianta controlar o jogo e não marcar).

Se quisermos chegar a algum lugar digno nesse campeonato, isso precisa ser corrigido.

Mas que a torcida siga fazendo o seu belo espetáculo de apoio maciço, como bem destacado pelo voluntarioso volante Jean, em entrevista após o jogo. Este time pode sentir a falta de muita coisa, mas não do incentivo das arquibancadas da Colina.

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