Fado – Campeonato Brasileiro 2017 – Palmeiras 4 x 0 Vasco

Fado. 

Fadário, destino, sorte.Vaticínio, oráculo, profecia.

Canção popular portuguesa, dolente e triste; música e dança que acompanham essa canção.

14/05/17. O Vasco retorna ao Allianz Parque (onde pisou pela última vez em 2015 e saiu vitorioso: 2×0). Estreia no Campeonato Brasileiro contra o defensor do título, o Palmeiras, clube que nos últimos anos se reinventou (após também penar por duas vezes no inferno da segunda divisão) e hoje possui o décimo maior patrocínio do mundo. Sim, você não leu errado (http://veja.abril.com.br/placar/palmeiras-renova-com-a-crefisa-e-passa-a-ter-10-camisa-mais-valorizada-do-mundo/).

O Real Madrid na Europa, sempre teve a má fama de comprar todo mundo, ainda que não utilize os atletas. Dinheiro pelos lados do Santiago Bernabéu, desde que me entendo por gente, nunca foi problema. E no Palestra nos últimos anos também não vem sendo. No Palmeiras dos últimos anos, jovens revelações (Keno, Raphael Veiga, Hyoran, Luan), surpresas sul-americanas (Mina, Borja, Guerra) ou figurinhas carimbadas no cenário nacional (Edu Dracena, William, Zé Roberto, Michel Bastos) são incorporadas ao elenco com a mesma naturalidade com que o sol se põe.

Já o Vasco, a duras penas conseguiu sanar parte de suas dívidas nos últimos anos. Com apenas o patrocínio da Caixa Econômica Federal, fez um investimento modesto, dentro de suas possibilidades, em técnico e jogadores. No início da temporada o planejamento não deu certo com Cristóvão Borges. Veio então Milton Mendes, técnico detentor dos quatro níveis de licença de treinador da UEFA e ex-atleta do clube. Em pouco tempo a mudança foi notada em campo, ainda que as peças sejam essencialmente as mesmas, e que isso não queira dizer um futebol suprassumo.

A Taça Rio foi vencida com dificuldades contra o time reserva do Botafogo. Até o Vasco ficar em vantagem numérica, o placar era 0x0. Veio a semifinal do Estadual contra o Fluminense. Chances foram criadas no primeiro tempo e desperdiçadas (com destaque para a de Nenê, cara a cara com Diego Cavalieri). O Fluminense de tanto insistir acabou marcando. Uma…duas…três vezes. E poderia ter feito mais. O Vasco mesmo em desvantagem teve mais chances de diminuir a tragédia, mas não foi efetivo.

A propósito, que o Gigante da Colina ultimamente não tem vocação ofensiva, não é nenhuma novidade. Mas a dificuldade em colocar a pelota no fundo do barbante não vem de hoje, e sim dos últimos anos e diretamente ligada a fragilidade dos nossos elencos.

Em 2016, em 64 jogos foram 96 gols marcados. Em 2015, em 69 jogos foram apenas 79 gols. Vale lembrar: estes times ficaram marcados por gols em sua maioria oriundos de cobranças de faltas (cruzamentos) ou escanteios. E assim em 2015 fizemos a pior campanha do primeiro turno da história do Brasileirão e no ano seguinte jogamos pela terceira vez a segunda divisão.

Um time que faz poucos gols não necessariamente é um time ruim (o São Paulo tricampeão brasileiro com Muricy Ramalho cansava de ganhar de 1×0, por exemplo), mas para isso é preciso tomar poucos gols e ter um aproveitamento alto das chances que cria. Algo que o Vasco vem se especializando em NÃO FAZER. Contra o Fluminense, o Vasco teve boas chances quando o placar ainda marcava 0x0. Não converteu nenhuma. Hoje, contra o Palmeiras (que por conta da disparidade financeira acima citada criou um abismo técnico entre as equipes), o time não poderia se dar ao luxo de repetir a fórmula do insucesso.

Milton Mendes teve bastante tempo para treinar a equipe. Testou novas formações táticas. Nesse período, a zaga, que já vinha desfalcada de um dos titulares (vendido, por coincidência, vejam vocês, para o Palmeiras), sofreu mais um golpe. Não entremos no quesito extracampo (se Rodrigo era benéfico ou não, se realmente tinha alguma influência no vestiário, etc), mas a zaga que até o início do ano era a reserva, da noite para o dia virou titular e, o pior, SEM DISPUTA DE POSIÇÃO (chegamos ao ponto de, no Carioca, o volante paraguaio Julio dos Santos ser utilizado no setor). Hoje no banco de reservas não havia nenhum zagueiro. Embora o treinador tenha ensaiado um 3-6-1 (esquema muito utilizado por Renato Gaúcho na campanha da quase classificação para a Libertadores em 2006), optou por manter o 4-2-3-1 que vinha utilizando. Assim o Vasco foi a campo com: Martin Silva, Gilberto, Jomar, Rafael Marques, Henrique; Jean, Douglas, Matheus Vital, Nenê e Yago Pikachu; Luis Fabiano.

Mas, com apenas 4 minutos de jogo Jomar cometeu pênalti infantil. Jean cobrou e, apesar de Martin ter acertado o canto, marcou. O Vasco não se abalou com o gol sofrido e conseguiu se manter no jogo. Após bola mal afastada pela zaga palmeirense, Matheus Vital chutou colocado para boa defesa de Prass. Pouco depois, Douglas desarmou Guerra no círculo central e deu ótimo passe para Nenê pela direita. O camisa 10 vascaíno invadiu a área, com dois marcadores entre a sua perna esquerda e Luis Fabiano (Douglas que iniciou a jogada, também chegava para concluir). Poderia ter dado a bola para o atacante, melhor posicionado, mas optou por chutar com a perna direita e isolou a bola. Duas boas chances criadas, após ficar em desvantagem no placar. Nenhuma aproveitada.

Douglas, o nosso melhor e mais regular jogador desde o segundo semestre do ano passado, ainda testaria Fernando Prass com um chutaço de longe. Prass, no susto, quase tomou um frangaço. Três chances, nenhum gol.

O Palmeiras responderia com duas oportunidades na sequência. Primeiro Zé Roberto com um chute de fora da área, que desviou na zaga e foi para fora. Depois um chutão do zagueiro Mina acabou armando um contra-ataque para o veloz Borja, que deixou Jomar comendo poeira e se desequilibrou na sequênca. Guerra ainda pegaria a sobra e bateria cruzado, mas ninguém de verde apareceu para escorar dentro da área.

Não demorou muito e Jean recebeu bom passe pela direita e bateu cruzado, Martin Silva espalmou para o meio da área e Guerra apareceu livre para escorar e fazer Palmeiras 2 x 0 Vasco. O relógio marcava 41’/1ºT: O Vasco conseguiu tomar um gol no início e no final do primeiro tempo. Aí complica qualquer tipo de reação, certo? Não para Douglas, que do meio de campo faria ótimo lançamento para Pikachu na corrida passar às costas de Zé Roberto e sair cara a cara com Prass. O lateral/meia, entretanto, chutou em cima do goleiro, ao invés do canto. Quatro boas chances, nenhuma aproveitada.

Após bobeada de Prass e Jean, Douglas ainda apertou a saída de bola palmeirense, tomou e saiu cara a cara com Prass. O nervosismo bateu e o garoto, livre, mandou a bola no travessão. Cinco chances, nenhum gol.

A impressão que dava era de que o Palmeiras era um boxeador experiente e o Vasco um estreante. Não importa onde fossem os golpes cruzmaltinos, o Palmeiras sequer sangrava. Já os jabs palestrinos, sempre deixavam o cruzmaltino desnorteado. Até que no segundo tempo, as cordas começaram a fazer parte do jogo da cruz de malta. Veio o terceiro gol logo no início novamente (menos de 1 minuto jogado) e o quarto também próximo ao fim da partida (34′). Ainda poderiam ter saído outros, se não fosse a boa resistência e guarda proporcionadas por Martin Silva.

De se destacar, pelo menos, a postura de Milton Mendes, que mesmo vendo o planejado ruir, não abdicou de tentar ao menos empatar o jogo, não fazendo substituições para evitar uma goleada maior (colocou velocidade no ataque com Paulo Victor e Kelvin) e não tendo medo em sacar o medalhão Luis Fabiano (ainda que este tenha saído com a expressão de poucos amigos).

Que estamos ainda na primeira rodada do Brasileiro e logo de cara tivemos talvez o jogo mais difícil do campeonato, é certo. Assim profetizar qual será a sorte do Vasco nesta competição, neste momento, parece mero exercício de adivinhação. No entanto, há de se alertar: um time que marca poucos gols, desperdiça a maioria das (ou quase todas) chances que cria e atua com a zaga reserva como se titular fosse, parece destinado ao sofrimento. Torçamos para que este seja algo momentâneo, apenas uma estrofe necessária para no fim chegar aos solos e às palmas do sucesso. Pois de melancolia, o vascaíno está de fado cheio.

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