
T? certo, que tamb?m tem algum folclore nisso, porque falando do Andrade, nos lembramos do time do Flamengo Camp?o do Mundo, que encantou o Brasil e o Mundo, com um futebol m?gico, comandado por um maestro, o Zico, que com a sua t?cnica e a sua lideran?a, fez do Flamengo o time mais vitorioso da d?cada de 80. Ent?o por isso vou reproduzir um texto, escrito por Aydano Andr? Motta.
Craque na antev?spera do desembarque dos bilh?es de d?lares e euros no mundo da bola, Andrade n?o ficou rico, como merecia. Equilibra-se na classe m?dia com esfor?o, suando a camisa no time dos remediados, no duelo agravado pela inf?mia dos sal?rios atrasados que viraram DNA no Flamengo. Em campo, era ouro puro. Cabe?a-de-?rea como n?o mais existe, marcava e atacava com igual magia, um espet?culo, cereja do bolo num time de almanaque. N?o teve o devido sucesso na sele??o exclusivamente pela trapa?a da sorte, que o fez contempor?neo de Falc?o e Toninho Cerezo. Tudo bem – quem o viu com a camisa 6 rubro-negra n?o se esquecer? nunca mais.
Hoje, Andrade seria multimilion?rio no alvorecer da idade adulta, como acontece, not?cia velha, com qualquer Felipe Melo. A torrente de dinheiro que inunda o futebol (que n?o pararia em p? diante da mais branda investiga??o, mas isso ? outra hist?ria) veio bem depois da sua aposentadoria. E o ex-superjogador vive dias plebeus, como auxiliar-t?cnico rubro-negro. Quis o destino que ele tapasse um buraco no permanente bundalel? do clube justamente numa partida dif?cil, fora de casa, com o Santos, algoz da vida inteira.
O Flamengo, zebra total, ganhou, vit?ria necess?ria, ainda que pouco decisiva, na monotonia dos pontos corridos. Os jogadores dos dois times encenaram as respostas protocolares, alegria e frustra??o contidas, desfiaram as declara??es de sempre, receita desenxabida de bolo na era das rea??es pasteurizadas. Bem no meio deste deserto de sinceridade, Andrade chorou. Menos pela vit?ria, nada pelo sucesso ef?mero no cargo que, desambicioso, n?o almeja. As l?grimas nascem da emo??o de quem carrega na alma a devo??o pelo jogo. Brasileiramente.
Andrade n?o tem Hummer para passar nos cobres, n?o se permite trope?os em negociatas com empres?rios, passa a l?guas de amores hortifrutigranjeiros de uma tarde ou madrugada. Hoje, observa com a sabedoria dos cabelos brancos que sobem pelas t?mporas o eterno bafaf? das celebridades de ocasi?o em que se transformam, em 15 minutos ou menos, os boleiros mais desimportantes. Constata que alguns se enrolam na banalidade de um passe, muitos n?o sabem chutar, quase todos s?o incapazes de atua??es magistrais como tantas que ele encenou, ao longo da vida.
Como no finzinho do inverno de 1981, na m?gica noite em que o Flamengo enfrentou, num amistoso, o Boca Juniors de Diego Maradona, no Maracan? apinhado. No YouTube, o ent?o melhor jogador do mundo aparece como figurante que n?o viu a bola – porque Andrade tomou-lhe todas (repare, l? embaixo, que o 10 argentino aparece apenas cercado pelo 6 rubro-negro). Naquela jornada, e em muitas outras pelo time m?gico, conjugou a sutileza no roubar de bola com a precis?o cir?rgica no jogo ofensivo, coadjuvante que merece – e leva – o Oscar.
Ontem, chorou – pelo amigo Z? Carlos, morto dois dias antes, cedo demais, cruel demais, de c?ncer; pela press?o que sufoca o clube, subjugado a uma intermin?vel dinastia de trapalh?es; e, sobretudo, pela ajudinha que deu ao seu time de cora??o. No caminhar ao vesti?rio e ? prov?vel volta para a sombra (j? j? vem outro t?cnico, e outro, e outro), exumou a eleg?ncia dos tempos de jogador, a sabedoria dos craques e, com o pranto de quem n?o tem vergonha de mostrar-se humano, a sinceridade desaparecida do futebol ultraprofissional.
Pr?ncipe de anteontem, Andrade d? poucos aut?grafos, anda pela rua sem maiores ass?dios, ? (muito) menos paparicado do que merece. Mas entende o valor da vit?ria, e sabe quando ela exige que l?grimas corram pelo rosto. Chora, por ser do tempo em que se jogava por dinheiro sim – mas por amor tamb?m.
Dias que n?o voltam mais.



